Cabelos crespos, padrão comercial de beleza, autoestima e preconceito
Algumas semanas atrás, minha filha veio até mim e disse que queria alisar o cabelo. Ela tem só 4 anos.
Minha primeira reação foi dizer que alisar os cabelos é coisa de gente grande, e que criança não faz isso porque estraga os cabelos e faz mal pra saúde.
Logo em seguida, perguntei porque ela queria alisar os cabelos, e lá do jeito dela ela foi explicando que era pra ficar comprido, como os das princesas que ela gosta. Daí a mãe dela e eu a encorajamos a valorizar os cabelos dela como são. Dissemos que qualquer tipo de cabelo pode ser lindo, não só os lisos. Achamos que a Melissa ficou satisfeita.
Ainda assim, permaneci perturbado com aquele pedido. Foi um momento em que senti na pele, através da minha filha, o quanto as mulheres, desde criancinhas, são condicionadas a reconhecer e apreciar um único padrão de beleza.
Em quase 100% dos casos, a princesa dos desenhos ou a heroína dos quadrinhos é jovem, branca, magra, alta e tem cabelos lisos e compridos. E esse padrão de beleza está sempre associado à virtude e ao sucesso.
As crianças crescem vendo que, nas histórias, as personagens principais que praticam a bondade, a honestidade, a coragem, o altruísmo, que vencem os desafios, que conquistam o sucesso, são sempre parecidas. Enquanto pessoas de outras cores e raças, pessoas que são gordas, pessoas que são baixas ou pessoas feias são sempre personagens secundários. São os empregados do palácio, o povo das ruas ou os vilões. Aliás, um caso especial de vilão é a “bruxa má”, que é sempre uma mulher bem velha. Estamos dizendo para as meninas que quando envelhecerem, elas vão virar bruxas e ficamos indignados com a quantidade de plásticas e aplicações de botox que as mulheres fazem hoje.
Esse padrão de beleza que deixamos as crianças consumirem também é um dos alicerces do racismo estrutural. Ele faz acreditar, mesmo sem perceber, que pessoas dentro do padrão são melhores e merecem mais oportunidades e mais respeito. E deixa as pessoas alienadas, pois não sentimos estranhamento nenhum quando, por exemplo, vemos que numa reunião de diretoria em qualquer empresa, normalmente todos são brancos, exceto a pessoa que está servindo o café.
São tantos os prejuízos que esse único padrão de beleza comercial causa que minha esposa e eu percebemos que precisamos permanecer atentos e empenhados em oferecer livros e desenhos animados que mostrem, valorizem e estimulem a admiração pela diversidade das pessoas.
Também percebemos que a escola é o principal local onde a criança começa a conviver com as diferenças, e por isso a escola precisa ter conteúdo e atividades que ajudem a impedir que as crianças desenvolvam preconceitos, assim como conteúdo e atividades que estimulem a autoestima e o amor próprio das crianças que têm suas belezas fora do padrão comercial.
Em tempo:
- Não tem nada de errado se uma menina for alta, magra, branca e ter cabelos compridos e lisos. O que eu denunciei aqui é que nossa sociedade criou um mercado que somente valoriza esse tipo de beleza e deixa todos os outros de fora.
- Observei que a EMEI Heitor Villa-Lobos trabalha bem essas questões de valorização da diversidade e combate ao preconceito, o que é um excelente fato, embora não tire nossa responsabilidade como pais de fazer o mesmo.
Nos pais temos essa responsabilidade.Tenho como exemplo minha irma que criou a filha desde pequena aprendendo a se amar..hoje ela e uma moca linda com os seus lindos cabelos crespos e volumosos,embora seja a unica da sua turma assim.parabens ao casal pela iniciativa.
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ExcluirValeu Fer ;)
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